trechos

alguns fragmentos

 

Mesmo agora no bar, diante de tantas faces cansadas e bêbadas, é difícil pronunciar “eu”: a palavra existe, no entanto não era eu, não era ela, não era o sangue, não era a terra coagulada, é terrível, oca, oca. A tristeza é a língua emprestada do cinema, com suas frases de plástico e abraços medidos, ela não iria chorar, tinha orgulho, orgulho; e a companhia não retornava do banheiro, amassou com uma raiva cancerosa o cigarro curto no cinzeiro, aquele gasto inútil, batucava agora na mesa com ambas as mãos, o batuque comendo as paredes, a garrafa marrom, as paredes verdes, o vermelho, a terra, a terra. Oca.

 

 

O locador da casa é um, mas o do terreno é outro – nunca há acordo sobre os verdadeiros proprietários, como, aliás, acontecia com todas as casas na redondeza – cobram-se impostos e o aluguel era pago em parcelas miúdas, veja, o valor é justo, nunca nos ameaçaram se houvesse algum atraso, e pagavam as pinguelas. Lola gosta demais dali, uma falta bem temperada de silêncio pelas histórias furadas dos desempregados, doloridas dos desenganados de amor sentados na calçada, música ritmada espraiada nas noites, das paixões e arranca-rabos (Lola ouvia todas as brigas do casal ao lado), portas batendo às 4h30, hora de sair para trabalhar no centro e as crianças aos berreiros ardidos pelo lugar errado do mundo. Ali era casa.

 

 

O universo pariu-se em uma explosão de frascos de perfume contra a parede do banheiro, 15 invólucros espatifados, cada qual contendo um ínfimo big bang. Entretanto, frascos de perfume não são tão frágeis quanto parecem: é necessário força, concentração e perseverança para quebrar um único contra a parede. Como a suicida que engoliu 500 comprimidos. Duração: 10 minutos. Engolidos um a um, tragados inexploravelmente na linha de montagem língua, glote, degluta. Caso a suicida suspendesse os movimentos mecânicos ininterruptos, acordaria provavelmente no hospital tetraplégica, com o fio de vida desfiando em depressão e o estômago revirado por lavagens estomacais. E ela queria paz. Dez minutos de concentração e perseverança contra a parede. Fibra. Como a suicida. O primeiro frasco foi lançado 3 vezes antes de findar em estilhaços.

 

 

Ninguém comemora. Alegria sente-se um pouco adoentada. Hoje não estava boa. Provavelmente a expectativa da reunião durante a tarde toda é que a desanimara. Seu tempo se esgotara, nenhum número podia resgatá-la dos pensamentos relampejados sobre engolir seguidamente os 500 comprimidos que mantinha em segredo no armarinho do banheiro, para um dia, quem sabe? Mas agora tinha que estar em reunião dentro de trinta e seis minutos. Alegria despede-se pela porta da frente.

 

 

Cardumes de dois peixes, um grande aquário com sua sinfonia misteriosa da inaudição e eram sereias que não se podiam vislumbrar os cantos e eram algas que balançavam em ternos velhos, sargaços de amores esquecidos, trazidos e levados embora com as ondas daquelas canções de outros tempos.

 

Havia muita música ali, mas Lola já não conseguia ouvir.

 

 

As explosões não ressoaram todas juntas, foram florescendo como sinos em um canhão, de início, opacas, mas ao entrar o coro adquiriram um tom brilhante e cadenciado, carrilhão que arrancava toda poeira do solo, destruía todas as celas em arroubos estrondosos e as transformavam em fragmentos, em cacos, em pedrinhas, desfazendo as memórias de que um dia foram grades, paredes, uma penitenciária, a areia do que já fora sólido, o que se transforma em pó, desmancha-se às flores no ar.

 

 

Sexta é o mais cruel dos dias, deslindando o lilás de néons de convites para depois do trabalho, entremeio do asfalto escuro, unindo o que era antes memória em desejos, a raiz sem viço das tulipas de cerveja amarga, que nos nutre, a vida pouca em copos molhados. E tento, afasto as madeixas escuras caídas – elas escondem, roubam-me teus olhos escuros, não adianta, irmãzinha, teu cabelo era escorrido, agora não é mais, ficou crespo, bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, recite o verso, isso era, isso era, irmãzinha, agora a tática é terra arrasada, para que ninguém coma ou sobreviva fora de trincheiras, de lancheiras e horas do recreio, um sinal: em fila, isso foi, agora não é mais.
Cidade irreal, sob a névoa marrom, o sol poente é maior e nos clama, ao oeste, ao oeste!, e as brumas escuras da noite apertam-me a garganta, é final de semana – o que você vai fazer hoje, Clarissa? E o nome bate o sino da catedral, sete horas, é verão, a claridade da noite quente inunda-me por um momento, fugidio e difícil, Clarissa, Clarissa, multidões inundam a rua, o bar ali na esquina, consigo avistá-lo aqui de cima, tulipas embaciadas por histórias de mulheres fáceis, de traição súbita e espelhinho na bolsa, linda essa cor de esmalte! Não imaginava que a vida houvesse aniquilado tantas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Uma resposta to “trechos”

  1. adorei o livro!!
    com ele aprendi diversas palavras novas
    ñ é um livro daqueles monótonos e iguais a todos os outros
    cada frase tinha um lirismo .. qse q em forma d poesia
    valeu Ana Rüsche

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: