prefácio

Leia abaixo, o prefácio de Alberto Guzik publicado na íntegra.

APRESENTAÇÃO DISFARÇADA DE PREFÁCIO

Nas páginas que o leitor começará a percorrer depois de concluir a leitura (que desejo apressada e desatenta) desta apresentação, ele encontrará uma estrutura ordenada que contém uma grande desordem. Tal dualidade não é circunstancial. Ela foi profundamente buscada e (des)organizada pela escritora. Apesar de ser obra de uma mulher que atende pelo sonoro nome Ana Rüsche, esta não é uma narrativa “feminina”. Não no sentido dessa pseudo-literatura que produz os diários das Bridget Jones de um lado e os diários das Brunas Surfistinhas do outro. Não, senhoras e senhores, que Ana Rüsche não é dessas. Ela é uma poeta provada e uma escritora vigorosa em plena floração. Neste romance, o seu primeiro, concebeu e produziu uma obra sólida, consistente, dolorosamente viva e contemporânea.

Que ordem na desordem, irão perguntar. Basta folhear o livro e observar o índice. Quatro partes e cada uma delas composta por quatro capítulos. O livro obedece a uma forma geométrica de estrutura equilibrada: um quadrado dividido em 16 seções. Ana Rüsche ordenou cuidadosamente a estrutura para melhor poder jogar de pernas para o ar os vetores de sua narrativa. Não é casual o fato de ela colocar no início um episódio que tem seu lugar no meio da trama, um momento de intenso pathos. Nem tampouco o fato de a terceira parte da obra ser dedicada aos antecedentes de tudo que foi narrado até então. A construção do sentido de “Acordados” dá-se apenas na medida em que o livro é percorrido e descoberto. Seus personagens não estão mastigados. Têm de ser decifrados. E a autora não tem pressa. Impele o leitor. Faz com que este atravesse as camadas necessárias até perceber, ao fim de tudo, aquilo que acaba de ser contado.

A voz da narradora não é discreta nem busca camuflar-se atrás da coisa narrada. Ao contrário. Temos aqui um caso de narrador onisciente, o filhote contemporâneo do aedo grego, só que não cego, nada cego. O narrador é onividente também, e escruta os motivos internos mais recônditos de cada personagem. Mas não expõe tudo. A escritora não esmiúça mais que o necessário. Mostra o que tem a mostrar. Na medida certa. E, ao fazê-lo, põe em evidência uma humanidade triste e desesperançada, que não tem consciência disso, que não sabe de si, que não tem noção de para onde vai. Mas vai. Movida por um instinto cego. Como as bactérias, objetos de experiência das placas de petri, citadas no livro em mais de uma passagem.

Muitos diálogos cimentaram este livro. Percebe-se em suas páginas que a autora trocou idéias com uma multidão de poetas e romancistas. A partir dos autores das duas epígrafes, o magnífico moçambicano Mia Couto, autor de histórias “abensonhadas”, e a portuguesa Lídia Jorge. Esta, uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa contemporânea, recriou, lembra Ana Rüsche, em “Costa dos Murmúrios”, um outro livro. Lídia Jorge deslocou para o interior da África o romance de Virginia Woolf, “Mrs. Dalloway”, livro que a autora de “Acordados” afirma “amar de paixão”. Ana também indica entre os escritores com quem dialogou ao longo da feitura de seu romance as figuras dos ficcionistas Lewis Carroll, James Joyce e Clarice Lispector, dos poetas T. S. Eliot, Angélica Freitas, Paulo Ferraz e Carlos Drummond de Andrade.

Mesmo com essa intensa interlocução – que ainda inclui as obras teatrais de Dea Loher “A Vida na Praça Roosevelt” e “Inocência”, em suas montagens da Cia. de Teatro Os Satyros, e as interpretações dos atores Ivam Cabral em “A Vida na Praça” e de Cléo de Páris em “Inocência” -, Ana Rüsche atinge nestes “Acordados” uma voz muito pessoal. Mistura tudo e, com sua poderosa poesia, transforma essas vozes várias em outra coisa. Em uma dicção distinta e indiscutivelmente própria. A narrativa é arbitrária. Ora dá-se na terceira pessoa, a do narrador, ora na primeira pessoa, a do personagem. Sem que haja aviso prévio ou uma organização lógica para essas escolhas, passa-se de um modo para outro com efeito sempre surpreendente. A autora, em certos momentos, assume a palavra: “E aqui, novamente, embalamos nossa narrativa. Por uma barra de saia florida”.

São muitas, inúmeras, as quebras da “norma” narrativa empreendidas por Ana Rüsche. Ela ancora sua história em fragmentos que se desdobram, redescobertos, ao longo do livro. A colorida bolsa de crochê de Lola, por exemplo, cuja feitura e compra merecem exuberante detalhamento, está nesse caso. Em outras circunstâncias prefere nos expor um personagem através de trovões e relâmpagos, como ocorre com a irrupção na narrativa da obesa, macia e felliniana Alegria. Esta é oprimida por pesadelo em que dúzia e tanto de frascos de perfumes importados caríssimos arrebentam-se contra as paredes de azulejos do banheiro, provocando cortes na pele alva de sua dona.

Qual a trama costurada por Ana, em meio a tantas (re)invenções narrativas? É simples, quase banal. Gira tudo ao redor de uma reunião de negócios (o eixo de “Mrs. Dalloway” é a organização de um jantar, lembram-se?), onde será discutida a destinação do entulho que restará da implosão de um grande presídio em uma grande cidade. Pode-se pensar em um assunto mais sombrio e banal? Que sinistra sociedade tem de fazer reuniões de alto nível para destinar o entulho do que um dia foi uma sombria prisão?

Qual presídio? O Carandiru? Qual cidade? São Paulo? Não se sabe. A autora, paulistana de nascimento e residência, não se dá ao trabalho de identificar a metrópole na qual se passa a ação. Sabemos apenas que é uma grande urbe, uma megalópole muito semelhante à cidade natal de Ana Rüsche. Aos poucos ela nos apresenta os movimentos dos personagens envolvidos na história durante as horas que antecedem a tal reunião. Enfoca então o encontro propriamente dito. E revela em seguida seu desfecho. O fato de o “início” da história (se é que a história tem um “início”) estar no meio do livro torna a narrativa mais instigante e provocadora. “Acordados”, aliás, tem uma estrutura de mandala. O início e o final se encontram, se superpõem.

As cenas são percorridas por uma eletricidade nervosa que contagia todos os seus personagens. O cotidiano, descrito em detalhes de migalhas e manchas, é transfigurado pelo olhar da autora. Se fosse obrigado a escolher uma imagem, uma só, absolutamente poderosa, entre tantas, selecionaria a da escola de dança cujas aulas podem ser vistas pelos clientes de uma padaria brincalhonamente batizada de Moçambique Café, numa evidente piscada de olho a Mia Couto. A realidade da transcendência da arte, flagrada por trás dos vidros, vista sem ser ouvida, na forma de uma dança da terceira idade, que se revela ao fim do livro, é poderosamente metafórica. Vale por um programa estético.

Advogada formada em 2002 pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, Ana Rüsche deixa evidente sua familiaridade com os assuntos legais ao longo do livro. A maneira técnica pela qual descreve a preparação da reunião e seu desenvolvimento devem, sem dúvida, sua precisão cortante ao trato que a autora tem com o universo legal do mundo do big business. Até o título do livro tem ressonâncias legais. “Acordados” significa tanto estarem despertos (os personagens do livro) quanto estarem de acordo, estarem acertados sobre algum ponto. E trata-se exatamente disso. Até que ponto a ruiva negociadora Valquíria, o advogado sem nome, os empresários Ronald e a obesa Alegria, além da morena Lola, a bela garota do departamento administrativo da empresa, são seres capazes de decidir por sua própria vontade os atos de sua vida? O que os impele? Para onde seguem?

Ronald está à beira de um surto, sente-se perdido no meio da vida, sem rumo, executando uma negociação cujos resultados foram resolvidos antes, por instâncias superiores. Mas que precisam ser ratificados por uma reunião pro-forma que salvará as aparências da negociata vaga, mas evidente, que circula por baixo de toda a discussão sobre a destinação do entulho. Os outros personagens estão todos no limiar de crises similares.

Mas Ana Rüsche radicaliza. O livro tem ainda Clarissa, a figura lúcida e espectral, meia-irmã de Valquíria. Clarissa, cujo nome foi tomado da protagonista de “Mrs. Dalloway” (até com uns ecos de Érico Veríssimo). A mulher que empreende o salto sem volta. Tema do primeiro capítulo da primeira parte, e cuja dimensão só entenderemos plenamente na terceira parte do livro, em um monólogo tour de force que evoca altos momentos da literatura.

Um fantasmagórico passeio pela urbe é o que nos propõe Ana Rüsche. Cria um texto erudito pela carga de citações, de procedimentos poético/narrativos que emprega. Mas não se trata de um romance experimental estéril, desprovido de alma. Ao contrário. O livro é emocionante e eletrizante justo pela sua capacidade de capturar a musicalidade, os falsos sentidos de um cotidiano esmagadoramente carente de razão e lógica. “Acordados” vem integrar a nova prosa brasileira, um território onde já estão atuando, entre outros, os jovens “veteranos” Santiago Nazarian e Daniel Galera, e os jovens recém-chegados Del Candeias e Ismael Caneppelle. Não tenho a menor dúvida de que Ana Rüsche vem para ocupar um espaço seu, importante, significativo. Tão marcante quanto o impulso que teve, depois de formada em direito, de cursar literatura, que está concluindo agora, nos próximos meses. Ana quer trocar de território e abandonar as leis pelas letras. Os leitores brasileiros com certeza irão agradecer.

Para finalizar, gostaria de acrescentar uma nota pessoal. Quando Ana me convidou para escrever o prefácio do livro que o leitor agora tem em mãos, me senti feliz. Admiro a poeta de “Rasgada”, que conheci na Praça Roosevelt como uma fã dos Satyros, dos espetáculos da companhia. Admiro também a animadora cultural que promove lançamentos, saraus, encontros, que tem um grande grupo de amigos talentosos, jovens artistas que começam a mostrar suas obras. E sou leitor habitual de seu blog, http://peixedeaquario.zip.net, documentário de seus passos, de suas leituras, de suas muitas atividades.

Por todas essas razões, fiquei honrado pelo convite de Ana. Mas não entendi direito por que ela me havia escolhido. Poderia ter optado, dado seu currículo, por uma grande estrela acadêmica. Tenho a certeza de que nenhuma delas teria recusado. Em vez disso, resolveu convidar a mim, um ornitorrinco das artes, homem ao mesmo tempo de letras e de palco, de teoria e de prática, de tudo e de nada. Lendo o romance, porém, entendi o porquê do convite. Teve a ver com a ligação de Ana com os Satyros e também com o fato de eu ser escritor e já ter-me aventurado pelo romance urbano, como ela faz agora. Aceitei o convite de verdade então, mas não fiz, como ela queria, um prefácio. Prefácios são coisas pra professores de literatura, não pros ornitorrincos como eu. Fiz, isso sim, uma apresentação. Disfarçada de prefácio. Termino aqui então este meu texto que já se estendeu mais do que eu desejava. E espero ter transmitido ao leitor a ampla admiração que “Acordados” despertou em mim.

 

Alberto Guzik

São Paulo, setembro de 2007


Uma resposta to “prefácio”

  1. Parabéns por mais um belo trabalho, adorei!

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